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Nilson Sótero

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Poetas de Laboratórios deviam respeitar os que fazem o Verdadeiro Cordel

[02/11/2009 00:00]

O que fazer quando um bem cultural está sendo naturalmente modificado pra pior? Não existe uma fórmula conhecida além do chamado bom senso, quando o bem em questão é a literatura de cordel. Essa arte genuinamente nordestina que reúne tantos títulos importantes da poesia popular, como A Chegada de Lampião no Inferno, de José Pacheco, A Peleja de Cego Aderaldo e Zé Pretinho, de Firmino Teixeira, Pavão Misterioso, de José Camelo, Viagem a São Saruê, de Manoel Camilo, O Cão que dançou Lambada no Maior São João do Mundo, de Antonio Lucena, além dos versos de Patativa do Assaré, Zé Limeira e Zé da Luz entre tantos iluminados está perdendo sua essência. Tem muita gente nova se aventurando na literatura de cordel, muitos até com formação acadêmica e que fazem um cordel inteiramente técnico, sem emoção e sem noção. Andei comprando recentemente alguns dos tais exemplares e, sinceramente, parece chopp com água. Diante dessa nova onda de ‘poetas’ feitos em laboratórios é que me vem a preocupação com a literatura de cordel, para que não ocorra com a mesma o que hoje acontece com o forró. O cordel tem na sua essência a alma do poeta, cada palavra é parte de uma conversa natural entre duas pessoas encostadas na porteira ou no lombo de uma égua, o verdadeiro poeta popular não vai buscar palavras no Aurélio porque se não existir uma pra rimar ele inventa sem sair do contexto. Criar uma estória interessante é também o grande desafio do poeta cordelista, pelo menos foi o que pude perceber durante a VII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, que aconteceu no início do mês de outubro na cidade do Recife. A verdade é que o poeta popular também está preocupado com a cultura do cordel e, até pintou uma sugestão durante a Bienal, para que fosse lançado o Cordelivro, gente, eu particularmente, não consigo ver um livreto de cordel com sua capa digitalizada ou com traços de coreldraw ou photoshop, cordel só combina com xilogravura e não tem outro jeito. Ainda preocupados com este que é um dos maiores símbolos da cultura popular, os poetas destacaram a importância de ações para divulgar e estimular o cordel, como o 1º Encontro Nordestino de Cordel, Escritores Populares e Repentistas, que aconteceu em maio deste ano, em Brasília, e contou com a presença do presidente Lula. Então senhores aventureiros a caminho do mundo fascinante do cordel, tenham bom senso e deixem o cordel seguir seu rumo mesmo com todos seus problemas, pensem na obra de arte que é “Ai se sêsse”, de Zé da Luz, se não bastar lembrem do poeta Caixa D’agua desafiando a primeira rua da cidade de João Pessoa, e disse o poeta; ‘Ladeira da Borborema tu é maior do que eu / Mas eu me assubo em tu e tu num assobe neu’. E que assim seja o espaço sagrado do cordel, sempre garantido a poetas como Mestre Divino, de Sapé e Zé Veríssimo, de Araçagi. Àqueles que não possuem veias poéticas deixo um pouquinho de Zé Limeira, só pra mostrar o quanto é sagrado o espaço do Cordel… Da carcassa de um jumento/Que bicho má, peçonhento/Lacrau e piôi de cobra/Não pode mais fazer obra/Diz o novo testamento.

 

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