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Adilson Montenegro

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A mulher no esporte

[08/03/2010 12:38]

Pondo em foco as questões sócio – filosóficas e culturais, fica mais fácil entender as opiniões do Barão de Coubertin sobre a ‘participação’ feminina, ao recriar os Jogos Olímpicos da Modernidade em 1894: suas palavras ressaltavam que “às mulheres somente cabe, no contexto do esporte, coroar os vencedores com as coroas do triunfo” (Vazquez, 1987). Homem destemido e de visão, porém limitado pelos valores sócio – culturais da sua época, Pierre de Fredi, ou Barão de Coubertin, vetou a participação da mulher nos Jogos Olímpicos de 1896. Aliás, como demonstraram Fauria (1968), Boutlier & Sangiovanni (1982) e Garcia (1989), essa postura preconceituosa foi defendida até a sua morte. Somente em 1925, apesar de algumas poucas participações nos outros anos, é que o COMITÊ OLÍMPICO INTERNACIONAL (COI), no seu congresso pedagógico, aprovou a participação feminina, porém limitada à algumas modalidades e provas (VILLAR,1989).

O próprio desenvolvimento da sociedade industrial, com maior disponibilidade de tempo livre, consumo, estilo de vida, preocupações com a saúde e o desfrute lúdico e hedonista da vida propiciou a incorporação crescente da população à prática das atividades esportivas, sem distinção de sexo. A idéia de esporte, especialmente, o competitivo, como um atividade masculina, gerou grandes contradições entre as mulheres que se incorporavam a ele. Na percepção de Harris (apud Vazquez, op.cit), a masculinidade e feminilidade são dois estereótipos resistentes às mudanças culturais, especialmente no que se refere ao esporte de competição. Um levantamento literário feito por Oglesby (1982), concluiu que os estereótipos masculinos dominantes, tais como agressividade, liderança, ambição e métodos de treinamentos são traços indispensáveis em relação ao esporte competitivo. Por outro lado, os estereótipos femininos dominantes tais como a obediência, maternidade, subjetividade, passividade, ternura e emotividade são incompatíveis com a dureza das competições esportivas.

Mas, não percamos de vista a nossa temática do ser mulher no esporte ou “a mulher e a busca dos seus limites no esporte de competição”. Já falamos que elas foram se incorporando à sociedade e ao esporte num movimento conflitivo, e dentro de um processo no qual os homens já estavam engajados há muito tempo. Desde a origem do esporte moderno tem-se observado que as mulheres, especialmente, as de classes sociais privilegiadas, participam de determinados esportes, mas sem uma dedicação exclusiva. Nota-se que elas ocupam um determinado espaço social dentro de um contexto esportivo, no qual predomina um sistema dominante e um “ideal próprio” de vencer a qualquer custo, que promove, sustenta e perpetua tal sistema. O próprio êxito do esporte de competição como espetáculo esportivo é reflexo das pressões sociais dos diferentes movimentos feministas dos anos sessenta e setenta deste século, que foram mobilizando a opinião pública, incorporando as mulheres aos mais diferentes tipos de atividades sócio-esportivas e competitivas, quebrando tabus, crenças e preconceitos de uma sociedade machista.

O conflito de papéis sociais para a mulher dentro do esporte de competição estaria baseado nas disparidades inerentes às concepções biopsicossociais que norteiam o esporte em relação ao feminismo – incongruentes com o perfil de “mulher – feminina” – por temor à masculinidade. Muitas vezes esses conflitos de papéis são resolvidos pela retirada prematura das mulheres do esporte, ou participando daqueles esportes ditos mais compatíveis com as ‘condições’ da mulher.

Methany (apud Ferrando, 1987) formulou a teoria de que a sociedade aceita melhor as mulheres que praticam esportes tidos como femininos – aqueles que não encontram contradições nos meios sociais, ou seja, que mantêm o corpo dentro de uma condição esteticamente agradável, que utilizam aparelhos para facilitar os movimentos, tais como raquete de tênis e que possibilitam uma distância entre os adversários. Ao contrário, a sociedade como um todo reprime aqueles esportes que implicam em contato físico, força, propulsão do corpo no espaço ou esportes muito “competitivos”, identificando-os com comportamentos mais agressivos, ditos masculinos. Nesse sentido dá-se maior importância à aceitação da plástica à força física; da beleza estética aos músculos totalmente definidos.

Na percepção de Ferrando (1987), a teoria de Methany só seria correta enquanto reveladora de tendência dominante, mas não em um sentido absoluto, já que desde a formulação da teoria em 1965, houve definitivamente a incorporação da mulher aos esportes competitivos que poderiam ser classificados como “masculinos”, tais como o basquetebol, handebol, hockey, provas de arremessos, corridas de longa distância, artes marciais, entre outros. Notadamente, as teorias conflitivas entre as condições físicas da mulher e os esportes competitivos que eram vigentes nos anos sessenta, gradativamente foram caindo por terra, graças a maior participação de mulheres nos eventos esportivos de alta performance. Aliás, Mathes (apud Ferrando, 1987) comprovou a hipótese de que as mulheres praticantes de esportes mais “masculinizados” tenderiam a ter atitudes diferenciadas com relação aos seus próprios corpos.

2.1 – Mulheres-atletas

Uma vez admitida a incorporação da mulher no contexto sócio – esportivo e competitivo e em quase todas as modalidades olímpicas, ela está participando dentro de uma nova área do mundo esportivo: o esporte profissionalizado. É o esporte-espetáculo, remunerado, no qual a mulher faz das competições o seu meio de vida, ou seja, obtém sucesso, satisfação e independência financeira. Os prêmios por conquista praticamente se equiparam aos homens, especialmente no atletismo e tênis. Como mostra reportagem da Revista Veja, de 18 de novembro de 1992, a primeira mulher a aparecer no ranking daquele ano foi Monica Seles, com um faturamento de 8,5 milhões de dólares! Aqui, o que se percebe é que o fenômeno “mulher-atleta” é reflexo do próprio esporte que se pratica na atualidade, que incorpora as leis de mercado e quantifica praticamente todas as atividades atléticas.

Por outro lado, porém, existe um mecanismo no qual as “mulheres-atletas” acionam e desenvolvem suas potencialidades que ligam seus corpos a um modelo que mistura duas concepções básicas: “ideal próprio” e “limites da alta performance”. Elas, em busca dessa ideologia acabam, para Del Pino (1981), por adotar um perfil másculo da moral do êxito, que reforça o sentimento de alienação no esporte em todos os atletas, seja nos homens ou nas mulheres. Aliás, esse perfil reforça os argumentos de que elas estariam sendo vítimas das mesmas contradições que padecem os “homens – atletas”, em função dos sentimentos de manipulação, exploração, despersonalização e alienação nos mais diferentes tipos de treinamentos e provas. O uso de drogas ilícitas (como esteróides anabolizantes) para a melhoria da performance é um fato inegável e altamente preocupante. A sedução que se tem pelos índices a serem alcançados, os treinamentos exaustivos – que podem conduzir ao overtraining (sobrecarga excessiva de treinamento) e a todos os malefícios biopsicossociais nele embutidos – e as potências mistificadoras do cultivo do corpo levam as mulheres-atletas a se descaracterizarem e se sacrificarem para além dos limites possíveis e necessários, também em busca da igualdade. Harris (apud Messner, 1984) demonstrou que 94% das atletas não consideram sua participação no esporte como ameaça a sua condição feminina, sendo que 57% delas acredita que a sociedade as obriga a optarem muitas vezes entre ser mulher mais feminina ou ser “atleta-mulher”. O esporte, enquanto um sistema dominante e ainda fundamentado em estruturas masculinizadas, leva as mulheres a assumirem um perfil másculo, por vezes andrógino, como descreveram Klein (1983) e Leonard (1984).

Em tempos de ditadura da beleza, o corpo é massacrado por essa indústria, segundo Leite (1995) já que o mundo atual exige da mulher a valorização dos seus aspectos estéticos. É certo que, do ponto de vista da “mulher-atleta”, as que se identificam com os papéis masculinos de campeão obtêm fama, satisfação pessoal, e emancipação financeira. As belas personagens deste espetáculo esportivo se tornaram produto de consumo e da relação custo/benefício, levando-as a alcançar os mais altos patamares do prestígio e popularidade, quando conquistados os padrões institucionais e estéticos modernos.

Os índices femininos nos grandes eventos internacionais estão se igualando aos homens, especialmente nas corridas. Exemplo são as nadadoras chinesas, que estão assombrando o mundo esportivo com índices técnicos cada vez mais próximos aos dos homens. A preparação farmacológica não conhece fronteiras sexuais, em uma clara demonstração de que o esporte de rendimento é um sistema sui generis que incorpora quaisquer tipos de estereótipos sexuais, reforçando os argumentos de Harris (1981) e Oglesby (1982) de que a verdadeira personalidade da mulher-atleta é andrógina, que busca a superação dos limites humanos mediante a prática do esporte de competição.

Assim, o problema é o comportamento feminino no esporte moderno, ainda ser caracterizado como “masculinizado”. Elas sofrem pela aceitação das estruturas e dinamismo do esporte como reduto masculino, com ênfase na existência das grandes instituições que organizam, controlam e quantificam a relação atleta-rendimento-espetáculo esportivo.

Face a tantas contradições no mundo do alto rendimento (marginalização e preconceitos), a instituição esporte competitivo traz à tona a plenitude e a totalidade das qualidades físicas e atléticas das mulheres funcionando como um todo (mente, corpo e capacidade de rendimento) em busca de fama e “status” social. O “esporte – profissão” respaldado pela ciência e tecnologia na quantificação dos resultados é cada vez mais apurado e aceito dentro do contexto social.

À luz dessas evidências o esporte pode, por igualdade (homens e mulheres), desenvolver-se através das características de independência ou pela busca de um “perfil másculo, feminino ou andrógino” mantendo, no caso das “mulheres-atletas”, o modelo masculino de rendimento.

Se alguém duvida que no plano do esporte de competição, as mulheres não querem se igualar e até superar as marcas e performances masculinas, deve lembrar que, enquanto atletas, elas podem querer se transformar e mostrar à sociedade forças iguais ou superiores aos atletas do sexo masculino.

O esporte pode dar às mulheres oportunidades de auto-afirmação de sua potencialidade física que foi negada sob a ótica da tradicional definição do papel sexual em sociedade. Apesar disso, a alienação das mulheres no esporte, sua indiferença ou relutância para aceitar valores sociais, econômicos e políticos inibe em muito o encaminhamento dos talentos esportivos do sexo feminino.

Na atualidade, o esporte oferece recompensa à capacidade de rendimento individual e coletivo e por essa razão, o grau de participação da mulher e suas implicações seguem caminhos alternativos, que Duquin ( 1993 ) postulou serem percebidos e conduzidos como modelos de orientação masculina; uma atividade instrumental adequada a homens e mulheres e como uma atividade andrógina. O autor verificou (utilizando o “IPSB”) que a participação da mulher no esporte terá conseqüências diferentes – dependendo das percepções que tenham sobre os papéis sexuais. Demonstrou através do “Inventário de papéis sexuais” que o esporte é um atrativo para as mulheres classificadas como “masculinas ou andróginas”.

O esporte é andrógino quando incorpora elementos tecnológicos da instrumentalidade e da expressividade. Talvez um modelo dominante que permite o interjogo do poder e trabalho com rendimento, que reforça a subordinação dos atletas ao poder do dinheiro – sugerindo as mulheres que incorporem em seus papéis sexuais, um perfil atlético que expresse manifestações esportivas de forma que possam se ajustar ao esporte como uma realidade social dos tempos modernos.

Perspectivas conclusivas

Verificando o esporte como um fenômeno social que reflete as mais diversas nuances do cotidiano, percebemos que ser mulher no esporte é estar envolvida num segmento que foi criado para e pelo homem (sexo masculino).Com isto, este possui características que facilitaram a perpetuação de pressupostos de dominação através de aspectos biológicos, psicossociais, culturais, sexuais, entre outros, fazendo assim com que a mulher, ao querer estar presente nesse meio, tenha que viver um ritual de passagem para conquistar a possibilidade de fazer parte da expressão Esporte, sem o adjetivo feminino – no próprio vocabulário esportivo, aparentemente, só há as expressões “Esporte” e “Esporte feminino”, pois esporte masculino está implícito no termo macro “Esporte” .

Nesse sentido queremos pontuar que a busca dos limites da mulher no esporte de competição transcende os paradigmas das categorias sexuais porque historicamente, em nossa sociedade ocidental, as mulheres sempre estiveram subordinadas aos homens. Apesar desses conceitos serem aceitos enquanto valores culturais, sociais e esportivos, a verdade é que a “mulher – atleta’ tem convivido com arranjos institucionais, críticas e otimismo com relação as suas necessidades de efetuar mudanças sociais, já que o diálogo “mulher – esporte – excelência de rendimento” vai possibilitando profundas transformações que vão diminuindo os preconceitos de conviver com o seu corpo de forma diferenciada da população em geral. O corpo, que conforme Alonso (1993) é pensado e vai produzindo um universo de imagens e de valores significativos. Daí, a importância de qualquer preparação atlética estar associada a uma tríplice direção: corpo, mente e capacidade orgânica de rendimento esportivo. Obviamente, a mulher no esporte moderno desempenha um papel fundamental, uma vez que a imagem da “mulher-atleta” está modificando a forma de pensar, sentir e agir dos indivíduos em sociedade.

Assim considerando, esporte e mulher carregam consigo um significado social e pessoal, cuja compreensão está além dos papéis e das definições de comportamento quanto ao gênero masculino e feminino, especialmente pela falsa consciência de identificar o sexismo tanto em sociedade quanto na consciência da liberação feminina no esporte. A consciência feminina não está mais restrita às atividades domésticas, limitações impostas pela sociedade e/ou falta de tempo livre para as práticas sócio-esportivas – por isso, a decisão de assumir um papel de “mulher-atleta” ou de abandonar esse perfil comportamental cabe a elas. Os critérios e estratégias para esse envolvimento com o esporte estão sendo desenvolvidos dentro de um contexto que atravessa os valores fundamentados pelo domínio masculino. A mulher no esporte, conforme Freitas (1993) pode subordinar-se ao poder econômico de forma mais rápida que o homem, aparecendo nua para as revistas e adquirindo um pensamento masculinista, numa tentativa ambígua de tentar escapar à redução de uma consciência feminina que ressoa em seu contexto cultural particular ao próprio sexo. Fora isso, a hetereogeneidade das mulheres no esporte moldou recursos para resolver pressões provocadas pelas forças sociais amarradas às relações do poder – ou alguém dúvida que as mulheres ficaram mais poderosas e ganharam mais expressão em sua aliança com o esporte de alta performance? Vale ressaltar, porém, que as mulheres não devem lutar pela igualdade e sim pela equivalência de direitos – e por conseguinte de deveres.

Referências bibliográficas

1) ALONSO, L.K. (1993). Esporte e Psicologia: um diálogo necessário. Simpósio – Esporte: Dimensões Sociológicas e Políticas. São Paulo, EEFEUSP, (1), (60-4).

2) ANDROIZOLA, J.M. (1987). La Mujer y el rendimiento: aspectos biológicos de la mujer deportista. In: ESPANHA. Ministério de la Mujer. Mujer y Deporte. Madrid, Servícios Gráficos Colomina, (p.13-19)

3) BOUTLIER, M.A; SANGIOVANNI, L. (1983) The sporting woman. Champaign Human Kinetics,

4) DEL PINO, C.C. (1971) Cuatro ensayos sobre la mujer. Madrid, Alianza Editorial.

5) DUQUIM, M.(1993). Sport, women and the ethic of care. Journal of Applied Recreational Research, 16 (4), 262-80)

6) FASTING, K.; TANGEN, G.O. (1986). The influence of the tradicional sex roles an women’s participation and engagement in sport. Medicine and Sport, (15), (41-48).

7) FAURIA, J. (1968) Las olimpíadas. Barcelona. Hispano-Europea.


Adilson Montengro

 

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